A intervenção urbana é uma forma de arte cujo objetivo é interagir, de maneira criativa e poética, com o espaço cotidiano e as pessoas. As intervenções são capazes de reinventar, ainda que momentaneamente, novos sentidos ao espaço escolhido e suscitar novas percepções às pessoas.

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21.3.16

Entre Saltos no ventre da São Paulo: sapatos e cabelos unidos para a consagração da ARTEmísia que existe dentro de nós

Mais uma vez realizamos a performance Entre Saltos na cidade de São Paulo. Dessa vez a intervenção foi realizada no centro da cidade. Partimos do Vale do Anhangabaú, em direção ao Mosteiro São Bento e de lá seguimos até a Catedral da Sé e retornamos pela rua Direita, passando pela praça do Patriarca e finalizamos a ação deixando a instalação na Fonte dos  Desejos que fica na escadaria do vale ao lado do Teatro Municipal.
Foto: Rodrigo Dionisio
Foram três dias de oficina de performance urbana ministrados por mim e Natália Vianna. Encontros fundamentais e preciosos para a construção da harmonia, igualdade e  conexão do coletivo que interviu no último sábado, 12 de março pelas ruas do centro.
Eu propus ao grupo uma série de estímulos durante o processo de pesquisa do trajeto que renderam muitas conversas e um espírito criativo necessário a alma de um coletivo de artistas. E assim o grupo decidiu que no caminho seriam deixados rastros da caminhada desequilibrada. Também concordaram que a praça e a catedral da Sé mereciam um “carinho” especial.
Foto: Pedro Vale
 As ideias foram discutidas durante as oficinas. Pessoas tão diferentes em um círculo, mas com ideais idênticos e vontades unificadas a fim de dizer “sim!”.
As quinze horas do sábado o grupo saiu do Centro de Referência da Dança e seguiu em direção ao Vale do Anhangabaú, e logo no início presentearam o Ilustríssimo Senhor Rui Barbosa com uma nova boca. O político ganhou lábios mais carnudos e o batom rosa pink lhe caiu muito bem.
Saltos seguiram marchando e ecoando na imensidão do vale. Uma gari se compadeceu do grupo e por alguns metros decidiu varrer os cacos de vidros que estavam em nosso caminho “Deixa eu varrer para as meninas não cortarem os pés” disse a funcionaria da prefeitura.
Subimos pela escadaria do metrô São Bento para chegar ao Mosteiro e anunciamos essa chegada forjando o som do nosso próprio sino ao bater forte com os sapatos no corrimão de alumínio da rampa de acesso.
E ali no oratório esculpido na parede do Mosteiro, logo abaixo do monumento do santo, eu depositei um sapato de salto alto rosa, o segundo rastro dessa caminhada. Ficou tão bem acolhido ali, que parecia que aquele oratório foi planejado para receber um salto rosa.
Fotos: Rodrigo Dionisio

A poucos metros dali,  na Rua XV de Novembro, a escultura fofa de um anjinho em uma fonte também recebeu lábios cor de rosa choque.
“Prostitutas, obra do demônio personificada na cor escarlate, herege, pomba-gira, vadias...” foi o que ouvimos no final da XV de Novembro, anuncio inicial dos demais discursos feminofôbicos que também ouviríamos por toda Praça da Sé, dos fanáticos religiosos com suas bíblias em mãos.
O grupo das vinte e cinco “vadias” que eu prefiro chamar de “obra da arte personificada na cor escarlate”, ao se dirigir a escadaria da Sé tinha um passo tão firme e uma cor tão vibrante, que parecia que éramos o dobro de nós. Nos posicionamos enfileiradas, ombro a ombro. E como eu disse no inicio tínhamos planejado um “carinho” especial para a Sé. Eu havia dito ao grupo que desejava queimar algo ali. E em meio a diversos palpites surgiu a ideia do Jean Carlo Cunha, integrante do PI: cabelos. Sim, a ideia foi a de cortar pedaços de nossos cabelos, unindo o DNA de todas as Entre Saltos como oferenda para queimar diante do templo do desequilíbrio. “Mas temos que sublimar” acrescentou a Chai Rodrigues, “então vamos defumar, vamos depositar os cabelos em um turíbulo e benzer a Sé com nossas madeixas” concluiu a pisciana.
Foto: Rodrigo Dionisio

Sugeri uma erva para queimar junto com os cabelos, uma erva chamada Artemísia, que possui propriedades ligadas a vibração astral feminina, ao equilíbrio e fortalecedora da feminilidade. Se consumida de maneira inapropriada também pode ser abortiva. Para nossa surpresa, no último dia de oficina a Natália Vianna nos veio com a informação de que no século XVII existiu uma artista chamada Artemísia Gentileschi, uma pintora italiana que foi uma das únicas mulheres a serem mencionadas no ramo da pintura artística do barroco. Ela dedicou-se a temas trágicos em que suas personagens femininas representam papéis de heroínas. Artemísia foi estuprada aos 17 anos por Agostino Tassi, um assistente do ateliê do pai. No julgamento dele torturam-na para julgar a vericidade de sua versão. Não podendo ficar em Roma, foi-lhe arranjado um casamento de conveniência. Separou-se depois de dez anos e partiu rumo à Florença, onde descobriu uma vida empolgante no mundo das artes na Itália do século XVII e, com o crescente sucesso de suas obras, tornou-se a primeira mulher a entrar para a Academia de Arte de Florença. Com essas informações tínhamos certeza de que a erva sugerida por mim seria o melhor ingrediente para misturarmos aos nossos cabelos no turíbulo para benzer toda a Sé. E assim foi feito. Na escadaria, de costas para a catedral, a tesoura passou de mão em mão. Aos poucos o turíbulo foi ficando recheado de fios, cachos e madeixas de diversos tons e cores. Por último despejei a Artemísia, e seguimos espalhando a fumaça da combustão da unificação de nossas células, de nossos anseios e desejos. E seguimos, cruzamos novamente a praça e antes de deixá-la, mais um rastro: o marco zero recebeu também um salto rosa, presentinho do grupo de Artemísias escarlates.
Foto: Rodrigo Dionisio

Foi seguindo pela Rua Direita que percebemos que o salto alto rosa deixado no marco zero ficou pouco tempo ali. Três moradores de rua passaram a nos acompanhar e traziam o sapato rosa. Eles tinham uma garrafa de cachaça e  usavam nosso salto rosa como copo.  A intervenção na intervenção, a performance na performance.
Foto: Cris Fraga


Foto: Pedro Vale












Chegamos na praça do Patriarca e ali nos esperava o aristocrata José Bonifácio. O Patriarca da Independência não podia ficar de fora de nossa criatividade pink, por isso o monumento recebeu um singelo triângulo como adorno. Será que essas meninas querem discutir gênero???? Acho que o Patriarca finalmente sacou que sim.

Foto: Rodrigo Dionisio

Prefeitura, viaduto do Chá, Teatro Municipal e pronto! Chegamos ao ponto de partida e fechamos nosso circuito. Dessa vez a já tradicional instalação de sapatos que marca o fim do trajeto, foi deixada na Fonte dos Desejos, réplica da que existe em Roma, lá as pessoas jogam moedas e fazem pedidos, aqui em São Paulo é um grande mictório a céu aberto. Nossos saltos foram nossas moedas, atiramos em direção a fonte. Em sincronia o grupo jogou os sapatos e ao nosso lado estavam os três moradores de rua com o salto alto rosa, e um deles seguiu os movimentos do grupo e arremessou o sapatinho rosa. E mais uma vez eu confirmei a mim mesma: a beleza da intervenção urbana está na espontaneidade do inesperado que por nós é sempre esperado como válvula de motivação que nos faz seguir intervindo e performando nas ruas.
Por Priscilla Toscano

FICHA TÉCNICA ENTRE SALTOS - Centro de São Paulo - 12.03.2016

Criação e realização: Coletivo PI
Direção: Priscilla Toscano
Assistente de direção: Natália Vianna
Performers: Priscilla Toscano, Pâmella Cruz, Natália Vianna, Chai Rodrigues
Participantes da performance: Adriana Archanjo, Anahy Sales, Andrea Barbour, Andrea Lopes, Douglas Torelli, Elisete Pereira dos Santos, Emanuela Araujo, Evelyn Ramos da Silva, Felipe Gonsalves, Guilherme Novais, Julio Razec, Leandro Brasilio, Manuella Alves da Silva, Marcelo Prudente, Maria Oliveira, Marie Auip, Mellanie Reis, Nathalie Brunetti, Rayssa Avila do Valle, Rosana Pellegrini
Direção de produção: Priscilla Toscano
Assistente de produção: Mari Sanhudo
Apoio técnico: Chai Rodrigues e Jean Carlo Cunha
Comunicação: Pâmella Cruz e Chai Rodrigues
Assessoria de imprensa: Luciana Gandelini




3.8.15

Performance Contornos pela primeira vez no Rio de Janeiro

Foto: Roni Adame
Ação do Coletivo PI faz parte da programação Maratona Cultural Cidade Olímpica, do Ministério da Cultura.
Contornos é uma performance do Coletivo PI, núcleo de performance e intervenção urbana, em que quatro mulheres criam uma tela ao vivo pintada com os próprios corpos. Cada performer se banha em tinta de cor diferente e pinta uma tela a partir de seus movimentos corporais, deixando contornos coloridos.
A ação tem inspiração na pintura gestual de Jackson Pollock, cuja pintura era fruto de uma composição de movimentos e gestos, em que o artista entra na obra e dá vasão ao ato espontâneo de criar. Outra referência é a artista contemporânea Heather Hansen. Ela une a dança e o desenho, criando grandes telas simétricas por meio de performance em que pinta com seu corpo as telas, usando carvão e os movimentos coreográficos. O trabalho surgiu da ideia de criar uma grande parede branca com as marcas de corpos, imprimindo cor e movimento, usando a materialidade do corpo como instrumento principal para feitura da tela, deslocando a importância da obra para o momento de sua criação, valorizando o processo e não apenas o produto final.
 A performance é uma celebração, que une diversas linguagens artísticas: a performance, a dança, a música e as artes visuais, além dos elementos da street art como o stencil de contornos femininos que iniciam a feitura da tela.
Divulgação oficial do evento pela Funarte.
O trabalho acompanha a perspectiva de pesquisa em site specific do Coletivo PI, sendo desenvolvido em diálogo com o espaço da ação. A performance pode ser realizada numa grande tela ou em muros e paredes da cidade, ganhando contornos próprios a cada realização. Por ser uma obra aberta, pretende-se trabalhar com as cores da bandeira do Brasil, dialogando com a temática das Olimpíadas e em referência às atletas mulheres que marcaram e marcam a história do esporte brasileiro.
Contornos nasceu da ideia da diretora Pâmella Cruz e teve sua estreia em maio de 2014 na programação da Virada Cultural de São Paulo, sendo realizado no Sesc Vila Mariana em uma grande tela branca montada em estrutura de box truss. Em 2015, o trabalho foi redefinido e entrou na programação do Sesc Ipiranga no mês de janeiro, dentro da programação de comemoração do aniversário da cidade de São Paulo, sendo apresentando duas vezes na rua lateral do Sesc em tapumes de madeira fixados nos portões da unidade.  Em fevereiro deste ano foi realizado em sala fechada, como galeria, na Universidade Mackenzie, pintando com os corpos todas as paredes do espaço. Por fim, em abril, fez parte da festa performativa ¡Venga Venga! Giramundo, sendo realizado no espaço Nos Trilhos por meio de tela fixada abaixo de um viaduto.
Contornos é uma reflexão poética sobre o corpo/matéria e a identidade/feminilidade. A performance encara o corpo como nosso território, a materialidade de nossa existência e pensa sobre os contornos femininos, como eles definem e segregam, quais as possibilidades transitórias de um corpo que é território, quais os carimbos que deixamos ou levamos em nossa relação com a cultura/cidade, que também é território, porém coletivo. É uma performance inusitada, que interfere no espaço e deixa a tela como lembrança viva de uma celebração.

SERVIÇO:
QUANDO: 08/08/2015
HORÁRIO: 15H
ONDE: Museu Nacional de Belas Artes
Avenida Rio Branco, 199 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20040-008 - (21) 2219-8474. (pátio interno do museu)
ENTRADA GRAUITA
DURAÇÃO: 30 minutos.

FICHA TÉCNICA:
Criação e Produção Geral
Coletivo PI
Performers
Chai Rodrigues, Natalia Vianna, Pâmella Cruz e Priscilla Toscano
Partitura Corporal
Marcelo D'Ávilla e Ednei Reis
Equipe de Produção
Jean Carlo Cunha e Mari Sanhudo

1.8.15

Entre Saltos no Performance Contemporary Almanac 2015

A publicação reúne mais de 250 artistas da Performance no mundo. O projeto também propõe a quebra do monopólio de editoras e pesquisadores.

Uma iniciativa da Contemporary Performance, de Nova Iorque, no EUA, vem reunindo artistas da performance de várias nacionalidades e estilos para promover e registrar seus trabalhos. A instituição lançou em 2013 o projeto "Contemporary Performance Almanac", uma publicação anual de trabalhos na área da Performance Arte. A primeira edição foi publicada em 2014. O Coletivo PI participa da segunda edição, em 2015, com a performance Entre Saltos.
Capa do Almanaque 2015

A grande valia do projeto está na forma de inserção dos trabalhos. Ao invés dos artistas terem que esperar por um grupo de pesquisadores e uma editora interessados em financiar o projeto, todo ele foi desenvolvido de forma coletiva tendo a Contemporary Performance como organizadora. Os artistas interessados produzem o conteúdo que tenham interesse em apresentar dentro dos limites de páginas, caracteres e imagens disponíveis pela Organização. Então, os artistas fazem o pagamento de uma taxa para publicação. Se este quiser ainda uma, duas ou três cópias do almanaque, pode fazer o pagamento proporcional. O almanaque é produzido e fica disponível para compra pela internet. Os conteúdos dele ainda ficam disponíveis no site da instituição. Mais de 250 artistas de todo o mundo compartilharam seus trabalhos nesta segunda edição. Entre eles, artistas e coletivos de performance brasileiros. Além do Coletivo PI, mais 17 artistas do Brasil estão no almanaque, como Marcelo D'avilla e Fe Vas.

Foto de Eduardo Bernardino que ilustra a
Performance Entre Saltos no Almanaque.
O Coletivo PI publicou a performance Entre Saltos nas páginas 56 e 57. A apresentação foi estruturada com um resumo do grupo, o conceito da Performance e a sua trajetória em 2014, quando percorreu quatro cidades do Brasil pelo Prêmio Funarte Mulheres nas Artes Visuais.

Os interessados já podem preparar materiais para a edição de 2016. O almanaque é escrito em inglês. Os artistas devem enviar textos obedecendo o limite de caracteres oferecido para publicação, enviar uma foto e dispor um link em vídeo do seu trabalho mais contatos como site, e-mail e redes sociais. A Contemporary Performance é uma organização americana que funciona como uma rede social e plataforma de organização comunitária de trabalhos, pesquisas, festivais, publicações e mais informações sobre a Performance Arte.


Para adquirir o Performance Contemporary Almanac 2015 pela internet: amazon.com/Contemporary-Performance-Almanac-2015

Por Chai Rodrigues

23.5.15

Sarau do PI - Literatura de Periferia



3ª edição do projeto sobre literatura feminina contemporânea ocorre no próximo sábado, na Casa das Rosas.

         Em sua terceira edição, o Sarau do PI - Literatura Feminima Contemporânea traz a temática da periferia e a mulher, dando voz aos textos de importantes representantes, começando por Carolina Maria de Jesus, que nesse ano completa cem anos de seu nascimento. Dessa vez o bate-papo sobre literatura, mediado por Talita Mochiute, será com Jéssica Balbino, e sua imersão na cultura hip-hop, e Michele Santos, do Sarau Sobrenome Liberdade. 
         A programação do Sarau ainda conta com a presença da cantora Graça Cunha e do violinista Stefanio Faustino, interpretando canções de compositoras brasileiras; a cena performática COMA das atrizes Emanuela Araújo e Fernanda Pérez, além do trabalho "Meu Corpo Minhas Regras" de Jean Carlo Cunha com a participação de Iza Monteiro, alargando as discussões de gênero, narrando sua história como transexual na busca de ser reconhecida como mulher.
         O sarau é aberto será realizado no próximo sábado, dia 30 de maio, a partir das 19h, na Casa das Rosas em São Paulo. O evento é gratuito e todos podem participar. Os ingressos serão distribuídos com uma hora de antecedência e o espaço está sujeito a lotação. A Casa das Rosas fica na Avenida Paulista, 37 - próximo à estação Brigadeiro, do metrô.

Saiba mais sobre os artistas da 3ª edição do Sarau do PI: Literatura de Periferia.

Foto: Adessa Melo
Michele Santos
As palavras escrevem caminhos: foi assim que Michele Santos juntou-se ao time de poetas do Sarau Sobrenome Liberdade, na região do Grajaú, zona Sul de São Paulo (onde atua como organizadora, mas vez-quando suspeita-se mediadora de espantos) e tornou-se educadora nas redes públicas de ensino de São Paulo. Entre saraus e salas de aula, a propagação da literatura atual e atuante é marca e princípio. Marginal, periférico, cânone – quando a palavra fala mais alto, as adjetivações ficam mudas. Por isso acredita no poder da disseminação cultural dos saraus e no ficcional da literatura como estratégia para construir realidades mais dignas, com especial apreço ao que diz respeito à voz feminina inserida no cenário artístico.“Toda via,” seu primeiro livro, está em estágio de edição. Tão logo venha: palavra de mulher.

Foto: divulgação
Jéssica Balbino
Jornalista, mestranda em comunicação pelo Labjor/IEL da Unicamp, criadora do Margens,  editora do site G1, pesquisadora, amante, apaixonada, entusiasta da literatura marginal/periférica/contemporânea brasileira. Viciada em saraus, poesia e livros. Participa com rigor de debates sobre cultura, arte, direitos humanos, literatura, feminismo e periferia. Especializada em jornalismo literário/digital e comunitário, produtora cultural com vivência intervenções, cursos e saraus. Produtora e assessora de imprensa e comunicação do Inquérito desde 2010 e das atividades e campanhas ligadas ao grupo desde então. Como a campanha de combate ao álcool “Um Brinde“, a criação do livro #PoucasPalavras, de Renan Inquérito e a criação, produção e comunicação do sarau Parada Poética. Autora dos livros Traficando Conhecimento (Aeroplano, 2010) e Hip-Hop: A Cultura Marginal (Independente, 2006), além de participar como coautora de diferentes obras vinculadas à literatura marginal e ao hip-hop. Revisou os livros “100 contos por 10 contos trocados”, “Troco um causo por um conto” e “Quase”, de Daniel Viana, inspirados em intervenções urbanas e micronarrativas. Membro dos coletivos Frente Nacional de Mulheres do Hip-Hop (FNMH²), Hip-Hop Mulher e Mjiba. Ministra oficinas, workshops e palestras sobre jornalismo hip-hop, literatura periférica e cultura marginal, além de escrevo eventualmente sobre hip-hop e literatura marginal para o site Bocada Forte. Produz também o documentário “Cada Canto Um Rap, Cada Rap Um Canto’, com Renan Inquérito e Vras77. Já escreveu para veículos especializados como Portal e revista RAP Nacional, Viva Favela, jornal Boletim do Kaos, para o número especial da Revista da Cooperifa e para uma edição do O Menelick – 2º Ato, com reportagem sobre a Livraria Suburbano Convicto, além de uma reportagem sobre o mesmo tema para a Revista Overmundo.

Foto: Ed Santana
COMA – Cena Performática
COMA é uma cena performática sobre questões do universo feminino e a marginalidade como o aborto ilegal e moradoras de rua. Criada pelas atrizes Emanuela Araújo e Fernanda Perez, a cena começa na Avenida Paulista e invade o espaço da Casa das Rosas, aguçando a curiosidade dos transeuntes e surpreendendo o público do sarau. Para ilustrar o tom de COMA, as criadoras reconstroem um trecho da peça Gota D’Água: Cuspe, veneno, carne, moinho, dor, cebola, coentro, gordura, sangue frio no centro de uma mesma mesa. Misture inverta. Moer a carne. Sangrar o unguento. Envenene. Unguento uma baba grossa e escura. Paladar violento, engolindo a criatura, co' a morte lenta e segura.






Foto: divulgação
Graça Cunha
Iniciou sua carreira em 1993, como solista no Musical Noturno de Oswaldo Montenegro, na Oficina dos Menestréis. Em sua trajetória, a cantora possui mais de 2000 trabalhos que foram ao ar (entre jingles e locuções para TV, Rádio e Cinema), assim como participações em CDs de artistas de renome, como Rita Lee, Jota Quest, Skank, Paulo Miklos, entre outros. Fez participações  em CDs lançados no Exterior, como Eletrobossa   Nights (Azul Music) e Brazilian Divas (Experience Records, lançado apenas no Japão), e no Brasil, nos CDs Cartola para Todos (MCD), Um olhar  Corciolli (Azul Music) e Rio 58  Roberto Coelho (MCD). Sua voz também se faz presente nos Documentários Pelé Eterno (2004), Cantoras do Rádio (Nov./2008) e Fiel, o Filme   documentário sobre o Corinthians, lançado em Abril/2009. Graça também integra desde Setembro de 2005, a Banda do Programa Altas Horas do Apresentador Serginho Groisman, que vai ao ar nas madrugadas de Sábado na Rede  Globo, com reprise aos Domingos às 16h30 pelo Canal  Multishow. Em 2007, lançou seu primeiro CD Solo De Virada, pela Gravadora Azul Music. Com este álbum, Graça Cunha foi indicada ao Grammy Latino em 2 categorias: Melhor CD de MPB e Artista Revelação. Também recebeu uma honrosa crítica de Nélson Motta ao seu trabalho, no Programa Sintonia Fina, que vai ao ar pela Rádio Eldorado FM. Lançou seu álbum Tiro de letra em dezembro de 2011

Foto: Roni Adame | divulgação
Meu corpo, minhas regras
A ação Meu Corpo Minhas Regras, de Jean Carlo Cunha do Coletivo PI, que acompanha as edições do sarau, agora recebe a narrativa de Iza Monteiro, contando sua trajetória para ser reconhecida como mulher, alargando as discussões de gênero. O trabalho questiona os padrões e imposições da cultura quanto ao uso do corpo. Trate-se de ações poéticas que dialogam com as questões em torno do universo feminino, onde a decisão do uso do corpo, deve ser pessoal e intransferível, nem da igreja, nem da família e nem do Estado. É uma frase que surge em meados de 2012 no movimento "Marcha das Vadias", e desde então é usada para uma série de protestos e manifestações feministas.


Talita Mochiute (mediadora)
Jornalista, possui graduação em Letras pela USP e Mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada com pesquisa em torno da obra Coetzee, com enfoque na figura do narrador. Tem experiência profissional na área de Jornalismo e Editoração. É parceria do Coletivo PI no Sarau de Literatura Feminina Contemporânea, assinando a curadoria em literatura e a mediação da conversa com as autoras.

6.4.15

A pele que não habito

Foto: Rodrigo Dionisio/FramePhoto
Texto do fotógrafo Rodrigo Dionisio sobre o registro do primeiro experimento da performance Contornos sem collant

O corpo nu é um dos temas recorrentes da fotografia. Por mero voyeurismo, exibicionismo ou a velha ligação da fotografia com as artes plásticas. Enquanto lê esta frase, milhares (talvez milhões) de objetivas estão apontadas para seios, vaginas, pênis e ânus. Ou tetas, bucetas, picas e cus, dependendo da intenção e do gosto do freguês. Do estudo do corpo nas escolas de fotografia ao selfie erótico, passando pela pornografia, câmeras registram as mais variadas peles com os mais diversos objetivos. Eu mesmo tenho um projeto de nu e a cidade, em busca de modelos e de decolagem.

Foto: Rodrigo Dionisio/FramePhoto
Em boa parte por isso não houve hesitação em aceitar o convite para registrar a primeira performance sem collant de Contornos, do Coletivo PI. Já havia fotografado Entre Saltos. Por questões de agenda perdi a apresentação de pintura com o corpo no Sesc, esta “vestida”. Era algo novo para as “meninas” e para mim. Já fotografei peças de teatro com nudez a rodo (Evoé, Oficina), sambistas se exibindo despudoradamente durante desfiles de Carnaval para milhões na avenida, estudos de corpo em aulas de fotografia, apresentações de sexo explícito, amigas e conhecidas para ensaios. A novidade aqui era registrar mulheres que aprendi a respeitar e que, principalmente, têm me ajudado a pensar o feminino. Era eu, homem, tentar entrar nessa vivência tão presente e alheia ao mesmo tempo.

Fotógrafos vão entender (ou não). Fotografar um corpo nu ou uma natureza morta, uma cesta de frutas sobre uma mesa, dá na mesma. Não estou coisificando as pessoas. Mas o ato de fotografar envolve mais escolhas técnicas, estéticas, históricas que uma divagação a respeito do que se fotografa. Por isso é possível fazer grandes fotos de absolutamente qualquer coisa. Também não estou pregando falta de envolvimento com o tema. Mas deve-se desconfiar de grandes fotógrafos cujos assuntos registrados são sempre mais interessantes do que como eles foram expostos. Isso é outro papo, e, enfim, lá estava eu em uma sala de 5 por 5 metros, se tanto, lotada, com uma iluminação precária, aguardando o início da performance. Configurações da câmera ajustadas, uma série de ideias sobre o que fotografar, pensando por onde conseguir me mover. Aguardando.

Começa a música, as quatro entram em cena, e é como andar de bicicleta. Enquadra, clica, revisa, pensa. Isso dura até começar o banho de tinta. Algo acontece ali naquele quadrado cercado de paredes brancas que tem um poder difícil de explicar, ou mesmo registrar em imagens. Meu tempo ainda pouco de fotografia (sempre vou achar pouco) me ensinou o limite do envolvimento. Até onde posso ir sem prejudicar meu trabalho. Mas admito, em determinado momento fotografar me importava menos. Dava para sentir a pulsação do que ocorria ali, uma respiração forte dentro da performance e só. Corpos nus já não eram a questão, eu via cores, gestos, expressões.

Foto: Rodrigo Dionisio/FramePhoto
A performance termina com a assinatura, um corpo mesclado de todas as cores se retira e sobra a vontade de aplaudir. Mas elas não retornam à cena, nos deixam lá meio órfãos. Percebo só nesse momento ter sido atingido por alguns respingos de tinta. Não é uma sensação nova, já encontrei uma bala de borracha dentro da minha mochila depois de cobrir uma manifestação, e apenas imagino o momento no qual ela foi parar lá. E esse paralelo não é gratuito. A força, a adrenalina e o envolvimento ao fotografar Contornos foi similar. É um ponto onde o fotografar se perde e se mescla no fotografado e leva o funcionário de Flüsser um tanto além do ato de apertar um botão. Em duas palavras: obrigado, meninas.

Obrigada, Rodrigo!!!
Coletivo PI

Rodrigo Dionisio é fotógrafo, proprietário da agência FramePhoto e professor do curso técnico de Processos Fotográficos do Senac São Paulo.

PERFORMANCE CONTORNOS

11.3.15

Saltos ecoam no chão e cortam o ar

Performance no viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida
Foto: Rodrigo Dionisio/Frame
O coro de Entre Saltos caminhou pela zona leste de São Paulo expondo a potência do feminino.

No dia 08 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher. A primeira pessoa a sugerir esse dia foi a jornalista e professora Clara Zetkin na Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, em 1910 na cidade de Copenhague, Dinamarca. Eram anos de grandes transformações no mundo e no comportamento das pessoas. O dia internacional da mulher era o marco de lutas pela igualdade de direitos ocorrida durante todo o ano e que reverberam na organização da sociedade hoje. Hoje há certo esvaziamento nesta data que é marcada por presentes, flores, cartões online e matérias falando sobre a ‘força da mulher’. Questionamentos e lutas por uma igualdade, ainda muito longe de ser alcançada, perderam um pouco esse espaço, mas ainda persistem algumas iniciativas e pessoas que continuam o legado.

 Durante o mês de fevereiro até abril de 2015, o Sesc Belenzinho promove o projeto Mulheres em Cartaz que debate, por meio de uma ampla programação e convidados das mais diversas especialidades, o contexto feminino hoje. Neste universo, a performance Entre Saltos, do Coletivo PI, foi inserida. A ação reuniu cerca de 30 pessoas decididas a agir e pensar por meio da arte o que é isso que chamamos de feminino; o que se quer dizer quando é mencionada a palavra mulher e que luta é essa, e pra quem ela é direcionada, do gênero feminino. Muitas questões herdadas e ressignificadas ao longo desses mais de 100 anos de questionamentos oficializados.

Performance subindo a estação Belém do metrô.
Foto: Rodrigo Dionisio/Frame
Dentro da performance participaram pessoas de várias idades, gêneros e formações. As oficinas preparatórias ofereceram ao Coletivo uma nova possibilidade de estética e fruição da intervenção. Num jogo de ‘coro e corifeu’* gestos foram sugeridos com os sapatos levados à mão durante a caminhada. Durante a performance no dia 08, essa condução de gestos foi dividida entre as participantes. Imagens lindas e poéticas surgiram a partir desse jogo entre as performers. O sapato, símbolo da feminilidade e, neste contexto, também símbolo de desequilíbrio, ganhou novas formas e interpretações: foram armas, pesos, filhos, extensores de braços, baquetas para produzir sons na cidade e produziram uma marcha forte que ecoou pelas ruas da região.

Entre Saltos saiu da unidade do Sesc, atravessou a estação de metrô Belém, entrou no bairro, passou por cima da Avenida Salim, caminhou e atravessou a estação Tatuapé e voltou pelo viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida, passando pelo Cemitério da Quarta Parada até chegar ao Sesc novamente. Após o percurso, os sapatos foram instalados na escadaria principal do Sesc Belezinho como uma cascata de pés em posição de caminhada. A instalação deve permanecer no espaço até o final do ‘Mulheres em Cartaz’, mas o percurso a ser seguido por mulheres pela igualdade de gêneros, inclusive na produção artística, ainda é um caminho de subidas e descidas constantes.  

Instalação dos sapatos ao final da caminhada.
Foto: Rodrigo Dionisio/Frame

Performance Entre Saltos
08|03|2015
Fotos: Rodrigo Dionisio/Frame


*’Coro e corifeu’ é um dos nomes de um exercício geralmente aplicado para treinamento em teatro e performance de atuadores. Consiste em uma pessoa a frente das outras que propõe um gesto ou movimentação e o restante do grupo deve segui-lo até que o comando do jogo seja passado para outra pessoa que repete a dinâmica. 

Por Chai Rodrigues