A intervenção urbana é uma forma de arte cujo objetivo é interagir, de maneira criativa e poética, com o espaço cotidiano e as pessoas. As intervenções são capazes de reinventar, ainda que momentaneamente, novos sentidos ao espaço escolhido e suscitar novas percepções às pessoas.

1.7.14

Sutil e poético, livro do PORO é um conjunto da produção artística realizada de 2002 a 2010

Capa do livro Intervalo, respiro, pequenos
 deslocamentos – ações poéticas do Poro
Por meio do apoio do Programa Brasil Arte Contemporânea, da Fundação Bienal de São Paulo e do Ministério da Cultura, a dupla de artistas Brígida Campebell e Marcelo Terça-Nada! que forma o PORO, lançou em 2011 o livro que retrata o panorama da trajetória da dupla.

Trabalhos visivelmente voltados para uma experiência estética que procura produzir novas maneiras de perceber o cenário urbano e criar relações afetivas com a cidade que não a da objetividade funcional do cotidiano, está cada vez mais conquistando seu espaço. E é assim que o PORO realiza intervenções urbanas e ações efêmeras poéticas, irônicas e/ou de cunho político, questionando sobre os problemas das cidades e buscam apontar sutilezas, trazer à tona aspectos da cidade que se tornam invisíveis pela vida acelerada nos grandes centros urbanos, refletir sobre as possibilidades entre os espaços públicos e os espaços institucionais.

O livro se apresenta por tópicos, cada um devidamente traduzido para o inglês, e distribuídos no sumário: a apresentação fica por conta da dupla que forma o PORO, e daí por diante uma coleção de imagens com suas respectivas legendas contendo título do trabalho, ano e local de realização e breve descrição de como e com que material fazer. A estrutura do livro segue com textos breves de vários amigos-autores com olhares poéticos e formação de diferentes áreas e que de alguma forma estiveram envolvidos no processo de trabalho do PORO. São eles:

Insignificâncias: A política nas intervenções do PORO, por André Brasil
Azulejos de papel, por Anderson Almeida
PORO: Poesia para alguém, por Daniela Labra
Sobre a arte das pequenas coisas, por André Mesquita
Inúmero PORO, por Ricardo Aleixo
Poro: na linha dos olhos, por Daniel Toledo e Luiz Carlos Garrocho
Arquiteturas adesivas, por Renata Marquez e Wllington Cançado
Para PORO, por Newton Goto

As obras do PORO são compartilhadas não só com a cidade, mas também com qualquer pessoa que queira usá-las como referência ou mesmo reproduzi-las, como eles mesmos dizem: “Levar parte desses projetos a outros espaços e tempos, permitindo sua ressignificação ou servindo como referência para outros projetos e reflexões, além de possibilitar que mais pessoas possam experiência-lo”.

Espaços Virtuais, PORO.
Um dos trabalhos que mais chama a atenção é “espaços virtuais” que acontece desde 2002 em diversas cidades, trata-se de iconografia do chão das cidades. Este trabalho é composto por uma série de fotografias de bueiros, impressas em tamanho real em adesivos e coladas propositalmente em ambientes internos variados tais como chão de casas ou galerias. E o mais curioso é saber do fato, que infelizmente não está descrito no livro, mas que foi comentado no sétimo seminário nacional de pesquisa em arte e cultura visual na UFG/FAV em Goiânia, que estive presente representando o Coletivo PI e Marcelo Terça-Nada! representando o PORO, nos contou: “Em uma  ocupação de galeria que fizemos, houve uma manutenção do espaço e na abertura estávamos lá, e reproduzimos a figura de uma tampa de metal no espaço interno, a responsável pelo espaço disse a um funcionário: “Vocês não virão isso aqui? Como não pintaram essa tampa?”Acreditando piamente na dimensão do adesivo e justamente reparando naquilo que na rua passamos batido, ou seja, a intervenção atingiu sua idéia principal antes mesmo dos convidados chegarem no local. Idéias como essas são sacadas do PORO, que questionam situações do cotidiano que já não nos incomodam mais. Como citam nos seus comentários Daniel Toledo e Luiz Carlos Garrocho “... o virtual não deve ser entendido como oposto ao real, mas sim o atual”.

Os que se interessam em conhecer mais sobre o trabalho do PORO, além de admirar intervenções urbanas e ações efêmeras podem adquirir o livro por meio do site, livrarias ou mesmo baixá-lo na versão e-book e conhecer muito mais desses trabalhos.

Título: Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos – ações poéticas do Poro
Organizadores: Brígida Campebell e Marcelo Terça-Nada!
Idiomas: português e inglês
Link do site oficial do POROporo.redezero.org
Link da versão digital do livro disponível - Ebookporo.redezero.org/publicacoes/ebook

Por Jean Carlo Cunha

8.6.14

Leve e claro, o livro Manual de Intervenção Urbana, de Eduardo Srur, mostra como lidar com a arte na ruas

Lançado em 2012, a obra mostra os principais trabalhos do artista paulista e seu processo de produção e repercussão.

Capa do livro Manual de
Intervenção Urbana
As utilizações das artes como Pintura, Escultura, Teatro, Dança, Cinema, Música, Literatura... desenvolveram diversos contornos, brechas e misturas ao longo do processo de modernização. Hoje, encaixar essas manifestações em um único nicho e também seus criadores tem se tornado cada vez mais difícil. O que se configura como positivo para os artistas mais contemporâneos e uma afronta para os mais conservadores. A partir da cidade de São Paulo, o artista Eduardo Srur cria diversas intervenções urbanas utilizando recursos das artes plásticas, arquitetura, escultura, performance entre outras expressões. Em 2012, suas principais obras, feitas durante 16 anos de carreira, foram reunidas no livro Manual de Intervenção Urbana, lançado pela Bei Comunicação.  

As primeiras páginas tratam da criação em tela de Eduardo. No correr das páginas percebe-se a transposição para as ruas. A Intervenção Urbana ainda é um conceito muito novo, mas que ganha cada vez mais adeptos. Alguns artistas estendem para a cidade suas criações e fazem do espaço urbano uma plataforma de trabalho, confronto e poesia. Todos os sentimentos juntos na tentativa de tornar esse local de convivência em real local de convivência. O artista paulista Eduardo Srur defende a ocupação da cidade por todas as pessoas quando afirma: “Faça uma ação com poder, tome o espaço para si, construa uma causa que seja de todos, jogue os dados e avance cinco casas, convoque a comunidade para vivenciar a dificuldade e a alegria, domine a técnica diante de todos os obstáculos, deixe flutuar sobre a água, permita que todos participem da arte, jogue os dados e avance até o infinito” (SRUR, 2012. pag. 140).
Intervenção Âncora
Fonte: eduardosrur.com.br

O livro é dividido em capítulos como se fossem regras a serem seguidas: Conheça o Território, Meios de Transporte, Pesquisa e Uso de Materiais, Pesquisa e Uso da Cidade. A leitura é dinâmica, os textos são curtos e as imagens se explicam. Eduardo realizou a maioria de seus trabalhos na cidade de São Paulo. Todas foram desenvolvidas baseadas no que os cidadãos dessa cidade precisam pensar ou mesmo para entreter: questões ambientais, projetos culturais e comerciais na cidade a fim de estimular a relação dos moradores com o espaço. A subjetividade deve estar acima do espaço físico: "Para a psicogeografia, o espaço urbano é composto não apenas de edifícios, vias, viadutos e avenidas. O que percorre essa descrição mais evidente de uma cidade é algo menos palpável. As cidades podem ser imaginadas, projetadas, executadas, mas seu funcionamento, seus regimes de força são determinados por uma cartografia emocional. O que é amado ou detestado – a área proibida ou francamente aberta – é determinado por questões que avançam para além das estruturas físicas, expandem-se em um horizonte muito maior do que aquele que os olhos alcançam”.(SRUR, 2012. Pag. 103)
  
O livro mostra o processo de produção dos trabalhos, sua instalação, os materiais utilizados, a repercussão na mídia, histórias e curiosidades de cada obra como, por exemplo, a intervenção Âncora. O objeto foi colocado no Monumento às bandeiras em 2004. Lá ela permaneceu por algumas semanas. Quando Eduardo e sua equipe foram recolher a âncora foram impedidos pela guarda municipal que alegava estar defendendo o patrimônio público.

O legal e o ilegal
Intervenção Touro Bandido, 2010
Fonte: eduardosrur.com.br
Para a maioria de suas performances ele buscou autorização de órgãos públicos para o desenvolvimento dos projetos. Em outros, não pedir autorização tornou-se um posicionamento político por acreditar que a cidade precisa ser ocupada pelas pessoas e suas vivências. Uma das melhores passagens do livro está relacionada à intervenção Touro Bandido. Em 2010, durante a exposição CowParede na Avenida Paulista, Eduardo instalou durante a noite e sem autorização, dois touros sobre as vacas produzidas para a instalação. A repercussão foi imensa e o artista teve que responder pela intervenção no 15º Distrito Policial do bairro Itaim Bibi. Os organizadores da CowParede o acusaram de danificar as vacas expostas. A resolução do caso encontra-se na íntegra no livro onde defende que nada foi danificado e “o declarante não buscou autorização legal para expor o ‘TOURO BANDIDO’ por ser uma estratégia de artista necessária para a própria exposição pública da obra, entendendo que se buscasse autorização dos órgãos públicos competentes, não haveria tempo hábil para realizar seu trabalho. Nada mais. Lido e achado conforme vai devidamente assinado por todos e por mim Escrivã que o digitei”. (SRUR, 2012. Pag.156).
Para os querem aprender mais sobre intervenção urbana, o livro pode auxiliar a compreender melhor a dinâmica das ruas e suas implicações na criação artística. O livro Manual de Intervenção Urbana pode ser adquirido em livrarias e sebos.

SRUR, Eduardo. Manual de intervenção urbana. São Paulo: Bei Comunicação, 2012.

Por Chai Rodrigues

24.5.14

Entre Saltos, em Salvador, encerra projeto pelo Prêmio Funarte Mulheres nas Artes Visuais

Foto: Milla Carol

Dia de sol e calor recebeu o coro de performers pelas principais ruas da cidade

Dia 23 de abril é dia de São Jorge. Segundo a crença popular, todo dia 23 ele passeia pela terra para verificar como estão as pessoas que tem fé nele. Desde o início do projeto Entre Saltos, São Jorge foi escolhido como o protetor dos homens e mulheres participantes desta caminhada. Escolhido talvez não seja a palavra, ele se fez presente por meio da fé. Ontem, 23 de maio de 2014, dia da ilustre visita, o Coletivo PI encerrou o projeto Entre Saltos na cidade de Salvador, Estado da Bahia. São Jorge estava lá, ao lado, protegendo a todos. O resultado não poderia ter sido melhor: Mais de trinta pessoas estiveram presentes, entre mulheres e homens.

Foto: Milla Carol
Definir o trajeto e o local da instalação foram os principais desafios da produção. A cidade é grande, cheia das obras em andamento, calçadas estreitas, possui diversos pontos possíveis para encerramento da ação e muita gente nas ruas. O coro saiu do Espaço Xisto, no bairro Barris às quatro horas da tarde, seguiu pela rua Sete de Setembro até chegar ao Pelourinho, um dos maiores centros de turismo do Brasil, berço de grande parte da história da Bahia. Uma hora e meia depois, a finalização foi no Dique do Tororó, lago que possui estátuas dos orixás, inclusive Ogum, representação de São Jorge na crença de matriz africana. Os performers fizeram um trançado de sapatos à margem do lago. Segundo a diretora do Coletivo PI, Pâmella Cruz, encerrar a performance em um lago foi importante por ser a água um local inédito e por esta ser um condutor natural de energia.

Durante essas quatro performances dentro do Prêmio Funarte Mulheres nas Artes Visuais, do Ministério da Cultura, o principal diferencial e trunfo do projeto foram as pessoas. Tanto os parceiros nas cidades auxiliando a produção quanto e, principalmente, as pessoas atuantes como performers. O atravessamento de sensações, histórias e objetivos ocorreu pelas duas vias: dos propositores do Coletivo PI para os participantes das oficinas e destes em direção ao Coletivo. Tantos sapatos, tantas passadas, cores e reflexões dos seres que ensinaram mais do que imaginam, por que o coro estava presente e era forte. Daqui pra frente, quase 150 mulheres e homens presentes na performance (inclusive São Jorge) pelas quatro cidades caminharão de outra maneira, porque a própria noção pura de ‘mulher’, ‘homem’, ‘gênero’, ‘ser’ foi questionada. Além disso, o conceito do que é espaço urbano, público, privado e arte foram colocados em cheque. São Jorge veio, participou, viu que estava tudo bem mesmo com o desequilíbrio pelo caminhar, mas a forma de pisar e, mais importante, continuar seguindo mudaram radicalmente.

Por Chai Rodrigues


FOTOS DA PERFORMANCE ENTRE SALTOS EM SALVADOR
Fotos: Milla Carol

Foto: Milla Carol

Foto: Milla Carol